A multissecular Freguesia de Covão do Lobo, cujo primitivo nome era São Salvador do Covão do Lobo ou Salvador do Mundo do Covão do Lobo como consta noutros documentos, nasceu muito antes de 1663, encravada entre as mais antigas freguesias de Febres, Covões, Sôsa, Vagos e Mira.

Já foi uma das maiores freguesias do concelho de Vagos, constituída pelos lugares de Igreja Velha, Chousa, Lugar, Rua da Capela, Fonte do Rei, Casta, Moita, Cabeços, Moitinha, Juncal, Fonte do Grou, Carvalho, Parada, Ponte de Vagos, Carvalhal, Fonte de Angeão, Gândara, Rines, Andal, Estrada, Sorens, Fonte da Costa, Grou, Pardeiros, Santa Catarina, Canas, Mesas e Vale.

De dimensões consideráveis foi, ao longo dos tempos, sofrendo sucessivos cerceamentos : em 1965 deu-se o desmembramento de Fonte de Angeão, com os lugares de Parada de Cima, Carvalhal, Fonte de Angeão, Gandara e Rines; em 1985 o da freguesia de Santa Catarina com os lugares de Andal, Estrada, Soraens, Fonte da Costa, Grou, Condes, Pardeiros, Santa Catarina, Canas e Mesas, assim que o Vale anexado à Ponte de Vagos.

Nos primeiros tempos foi esta freguesia pertencente ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, depois ao concelho de Mira do qual foi desanexado por decreto de 6 de Novembro de 1836. Contudo em 31 de Dezembro de 1853 é novamente incorporado em Mira, até ao dia 6 de Abril de 1856, data em que passa em definitivo para o concelho de Vagos.

in Jornal Terras de Vagos (Agosto de 1986)

 

ORIGEM DO NOME :

De acordo com a lenda, certo dia, um frade, ao que diziam, a caminho de Santiago de Compostela, passou por estes lugares. Contava pernoitar em Sorães, mas para os lados de Covão do Lobo foi perseguido por um lobo. A sua sorte foi encontrar uma árvore à qual subiu sem hesitar. O lobo, faminto, é que não o deixou descer. O frade bem gritava por socorro, mas ninguém lhe acudiu. Conseguindo acomodar-se o melhor que pôde num dos ramos, lá dormitou e rezou ao Santo Salvador da sua maior devoção, que lhe acudisse. Ao despontar da aurora, despertou com os latidos de cães que se aproximavam. Foi a sua salvação, pois os cães, açulados pelo dono, lá conseguiram afugentar o lobo, que se escapou por uma ravina ou covão, nas margens escarpadas de um rio que por aí corria. O caçador protegeu o frade, pedindo-lhe que ficasse por ali e construísse uma ermida. O frade assim fez, pondo como orago da capela o seu protector S. Salvador. Atendendo ao covão onde o lobo se meteu, chamou-lhe então S. Salvador do Covão do Lobo.

 

ORIGEM DO APELIDO BROA NEGRA :

Dedicados essencialmente à actividade agrícola em terrenos arenosos e pouco férteis, os habitantes de Covão do Lobo entregaram-se, em busca da sobrevivência, à apanha de moliço na Ria de Aveiro, ao comércio e à indústria do pez. Mas terá sido esta última actividade que lhe granjeou a fama de «Terra da Broa Negra», pois era do forno do breu que nascia o meio de sustento de homens, mulheres e crianças. O breu não parece ser mais que o produto extraído da resina e que era utilizado em tarefas tão diversas como a calafetagem dos barcos e a envolvência de redes de pesca na tentativa de evitar a deterioração da sensível matéria que as compunha, sisal. Mas para aqueles que passavam horas sofridas na odisseia da sua produção, o breu é muito mais que isso. Expressões que remanescem na memória da linguagem popular como “noites de breu”, “escuro como breu” ou “almas mais pretas que o breu”, dão à cor preta que caracterizava o breu, um significado bem mais profundo e intenso que aquele que nos é possível abarcar pelos sentidos. Na verdade, se preto era o breu por ser essa a cor que resultava da sua produção, com mais verdade preto era o breu pelas horas de trabalho cruel que exigia, pelo choro dos filhos com fome que cortava o ar enquanto os pais eram detidos por terem recolhido uns “cepos resinosos que iam aparecendo pelo caminho, que sabíamos que tinham dono, mas que éramos obrigados a esquecer por necessidade de sobrevivência”. A técnica apurava-se pelo modo como se colocava a madeira e à quantidade de resina que ela continha, e o breu resultava desse líquido (resina), já de cor alterada pela combustão e múltiplas impurezas, que não ardia e escorria por cavacos até um recipiente alojado no fundo do forno. Testemunha silenciosa destas vivências é o único forno do breu restante nesta freguesia, feito como os demais que o tempo e o esquecimento se encarregaram de fazer desaparecer, de cacos e barro, barro este utilizado para tapar o seu topo antes de se permitir que o calor das chamas começasse a trabalhar a madeira.

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